Apresentação


Podemos imaginar o grande salto que representa, na escala da evolução humana, o aparecimento da linguagem verbal – que apareceu primeiro como fala. Apesar de ser possível, dentro de limites, haver alguma forma de educação através de exemplo e outras interações não-verbais, é forçoso reconhecer que, sem a linguagem, não haveria educação como a entendemos hoje. Historicamente, portanto, a fala representa a primeira tecnologia que tornou possível a educação e que trouxe consigo, de certa forma, uma filosofia da educação.

Repito: sem a fala não haveria o que hoje entendemos por educação. Animais, mesmo os primatas mais avançados, não educam, no sentido em que nós educamos. Pressupõe-se aqui que apenas o ser humano realmente educa – e que aquilo que uma gorila, ou um casal de gorilas, faz com seus pequenos não seria, neste caso, educação. Esse processo de educar através da fala teve início, provavelmente, assim que o ser humano se tornou capaz de desenvolver conceitos e usar termos gerais.

É preciso ressaltar aqui que, no estágio da tradição exclusivamente oral, a educação é algo forçosamente pessoal e “presencial” (termo muito usado hoje para realçar o contraste com “educação a distância”). Para que ela aconteça as pessoas têm que estar próximas umas das outras, no espaço e no tempo, e criar, umas com as outras, relações eminentemente pessoais.

Antes do aparecimento da escrita, esses relacionamentos pessoais eram eminentemente presenciais: a contigüidade espaço-temporal era condição necessária (embora não suficiente) para sua existência. Hoje, evidentemente, a situação está profundamente alterada.

Além disso, é de supor que inicialmente a interação verbal tenha se dado, num contexto educacional, numa dimensão um-a-um – que veio, gradualmente, a ser estendida para uma dimensão um-para-muitos (e, hoje em dia, para uma dimensão muitos-para-muitos).

O modelo de educação caracterizado pelo contato presencial, um-a-um ou um-para-muitos, tem se perpetuado, mesmo depois da introdução na educação de tecnologias, como a escrita e, principalmente, o livro impresso, que tornaram possível uma educação não presencial e assíncrona (isto é, que não envolve contigüidade espaço-temporal).

Assim, durante milênios o ser humano educou predominantemente através da fala. Na verdade, nos séculos que imediatamente antecederam o quinto século da era pré-cristã a fala chegou próximo de tornar-se uma arte. A Odisséia e a Ilíada de Homero foram, inicialmente e por muito tempo depois, transmitidas oralmente (por declamação). Entre os gregos, o teatro, a retórica, a dialética e especialmente a lógica se tornaram objeto do mais sério estudo. Se a fala, em si, já era uma tecnologia, i.e., uma técnica inventada pelo homem para melhor descrever a realidade e se comunicar com outros seres humanos, a declamação, o teatro, a retórica, a dialética e a lógica foram tecnologias acessórias da fala, que permitiram que o ser humano usasse a fala de forma mais eficaz – em especial na educação (nas conversas, nas discussões, nos debates).

Talvez a melhor ilustração da filosofia da educação que corresponde a essa fase esteja na filosofia de Sócrates – que foi construída quando essa fase já da evolução tecnológica estava chegando ao fim, sendo, portanto, talvez, o seu “Canto de Cisne”. Sócrates já viveu no limiar de importante transição de uma cultura predominantemente oral para uma cultura que iria colocar cada vez mais importância na escrita.

Sempre admirei Sócrates – não só como filósofo, mas como educador também. Para Sócrates, o método por excelência da educação era o diálogo, a conversa pessoal, o debate, a discussão racional, em que um diz uma coisa e ou outro analisa e questiona o que foi dito, apresentando contra-exemplos e críticas, sugerindo alternativas, provocando seu interlocutor a continuar.

Esse método foi tradicionalmente chamado de "maiêutica" – palavra que vem do termo grego que quer dizer "parteira". Para Sócrates o professor é, como se fosse, uma parteira para o conhecimento do aluno. Quem dá à luz (constrói?) o conhecimento, quem aprende, é o aluno – mas o professor ajuda, apoia, facilita.

No Teeteto [1], Sócrates explica a seu interlocutor que ele era filho de uma parteira, Fenarete, e que, como sua mãe, ele próprio é um parteiro. Sua mãe ajudava as mulheres a dar à luz seus filhos; ele ajuda os homens (no sentido genérico) a dar à luz suas idéias.

Sócrates leva a analogia adiante, explicando que as parteiras, em geral, são mulheres que já passaram, elas mesmas, da idade em que poderiam parir seus filhos – por isso ajudam as outras. De igual modo, ele, Sócrates, e aqui fala a modéstia, já teria passado da idade em que poderia dar à luz idéias próprias – ficando na posição de quem agora só pode ajudar os outros...

Mas ele aponta também um contraste importante entre sua função e a das parteiras:

“A tarefa das parteiras é importante – mas não tão importante quanto à minha; pois as mulheres não trazem ao mundo crianças verdadeiras numa hora, falsificadas noutra. Se o fizessem, a arte de diferenciar as crianças verdadeiras das falsificadas seria o ápice da arte da parteira. . . . A minha arte, conquanto em muitos aspectos semelhante à das parteiras, envolve cuidar da alma, não do corpo. O triunfo de minha arte está no exame exaustivo do pensamento que a mente de um jovem traz ao mundo para determinar se é um nascimento verdadeiro – ou um ídolo falso. Como as parteiras, sou estéril; e a crítica que me fazem – de que faço perguntas que não consigo, eu mesmo, responder – é muito justa. A razão disso é que os deuses me compelem a ser parteira – mas não me permitem parir. E, por isso, eu mesmo não sou sábio, nem tenho nada a mostrar que seja invenção ou descoberta de minha própria alma – mas aqueles que conversam comigo se beneficiam... É claro que não aprendem nada de mim; as muitas idéias que apresentam são geradas por eles próprios – eu só os ajudo a trazê-las ao mundo...” [2] 

(Será que textos recentes sobre Construtivismo, que parecem sugerir que as raízes mais remotas desse movimento se reportam a Piaget, conseguiriam dar uma idéia mais precisa e sucinta de suas teses fundamentais do que esse parágrafo de Platão?)

É interessante que, segundo os relatos que Platão nos legou acerca de Sócrates, este não ia atrás de seus interlocutores, dizendo: "Venha aqui que eu tenho algo para lhe ensinar". Ele ficava esperando que as pessoas tivessem questões, perguntas, dúvidas e viessem até ele – daí ele procurava ajudá-las, à sua moda.

Digamos que (juntando pedaços de alguns diálogos socráticos), um jovem viesse até Sócrates e dissesse:

"Mestre, o que é a justiça? Quando é que agimos de forma justa?"

Sócrates nunca dava uma resposta direta à pergunta. Ele fazia outra pergunta ao seu interlocutor:

"O que você acha que é a justiça?"

O jovem tentava:

"Ser justo é fazer o que é certo".

"Ótimo", dizia Sócrates. "Mas o que quer dizer 'fazer o que é certo?'. Quando é que fazemos o que é certo, e quando é que fazemos o que é errado?"

O jovem tentava mais uma vez:

"Creio, Mestre, que faz o que é certo aquele que executa a vontade de Deus, aquilo que Deus manda, e faz o que é errado aquele que desobedece a Deus".

Sócrates continuava:

"Interessante sua resposta. Mas responda-me isso: Você acha que um curso de ação se torna certo porque Deus nos manda segui-lo, ou será que Deus nos manda segui-lo porque é o curso certo de ação?  O que você acha?"

E a conversa ia por aí em frente. Através de perguntas bem feitas, Sócrates ia ajudando seus interlocutores a dar à luz uma compreensão mais adequada do que significava ser justo e agir corretamente. Ele nunca dizia. Ele nunca ensinava. Ele ajudava o aluno a pensar por si só, a aprender, a se tornar um aprendente autônomo.

Sócrates não usava nenhuma tecnologia além de sua fala. Não seguia um currículo –  eram as questões dos alunos que lhe colocavam a pauta de suas conversas. Ele não tinha material didático – era contra materiais escritos (nunca escreveu nada – como Jesus Cristo também não). Não fazia prova para seus alunos, porque ao longo da conversa ele percebia que, ou o aluno tinha entendido (parido a idéia), ou a conversa (o trabalho de parto) não havia ainda terminado. Além disso, a conversa dele não tinha lugar numa escola, mas sim na praça.

Notem bem: um educador sem currículos, sem conteúdos predeterminados, sem materiais didáticos, que não ensinava, que não transmitia informações, que não avaliava se os alunos haviam assimilado o que ele tentara lhes transmitir, porque ele nada tentava lhes transmitir (no sentido em que usamos o termo). E que não usava nem a parca tecnologia da escrita já disponível então. E que era interativo e dialógico, e que ficava o mais próximo possível de seus alunos.

Saltemos no tempo para ressaltar que se afirma, hoje, que o computador é uma máquina interativa, que CD-ROMs nos trazem material didático interativo, etc. Mas algo, seja um equipamento, seja um material didático, só é interativo para quem está interessado em interagir, para quem valoriza o diálogo – o diálogo entre pessoas que se colocam num mesmo patamar, não o suposto diálogo entre quem sabe e quem não sabe, entre quem tem o conhecimento e quem o recebe passivamente.

No parto, a mãe faz todo o trabalho. É ela que é ativa. É ela quem trabalha (donde a expressão "trabalho de parto"). A parteira ajuda, apoia, auxilia, facilita. Na filosofia da educação socrática, quem deve trabalhar são os alunos, não o mestre-parteiro. Quem deve estar ativo e procurar construir seu próprio conhecimento são os alunos. São eles os protagonistas da história. O mestre-parteiro fica nos bastidores, apoiando, ajudando, facilitando, fazendo uma massagem motivatória, quando necessária ou recomendável, passando uma pomada quase milagrosa quando o cansaço nos dá cãibras e nos causa dor, incentivando aqui, desafiando ali, provocando acolá. Quando a educação é concebida assim não há problema de distância, porque ela se processa é na troca, na conversa, no diálogo.

NOTAS:

[1] Estou usando o texto traduzido para o Inglês  por Benjamin Jowett e publicado, sob o título Theatetus, em The Library of Liberal Arts, por The Bobbs-Merrill Co., Inc. (Chicago, 1949).

[2] Theatetus, op.cit., pp.10-11.

[Material retirado do meu artigo "Acompanha a Filosofia da Educação a Evolução da Tecnologia?" (http://chaves.com.br/TEXTSELF/EDTECH/ABE.htm), Anais do I Congresso Latino de Filosofia da Educação, promovido pela Associação Brasileira de Educação (ABE), em comemoração ao 100º Aniversário do Nascimento de Anísio Teixeira, Rio de Janeiro, Julho 2000].


Desejando, visite meu portal: http://chaves.com.br.


Eduardo Chaves
eduardo@chaves.com.br
Campinas, Março de 2007